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Menos timidez: exercício melhora o convívio social de adolescentes

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POR PAOLA MACHADDO

Menos timidez: exercício melhora o convívio social de adolescentes

Paola Machado

04/09/2018 04h00

Crédito: iStock

Quem me conhece –pessoalmente ou por me acompanhar nas redes sociais — sabe que sou extrovertida e falo sem parar, parece até que engoli uma vitrola. Mas nem sempre fui assim. Na minha infância e início da pré-adolescência, era uma menina muito tímida e introvertida. Tão introvertida que minha letra só eu enxergava. E só pessoas muito tímidas sabem o quanto é custoso fazer algumas atividades.

Expor uma criança tímida às vezes gera um grande sofrimento. Lembro-me das apresentações de teatro na escola. Eu era sempre o sol ou a árvore, que não tinham fala, e, mesmo assim, sofria para fazer aquilo. Não tinha quase amigos, não gostava de ir em festas, não ia na casa dos colegas, não gostava muito de passear. Minha vida social era quase nula.

Da mesma forma, minha relação com esportes coletivos foi muito difícil. Nas aulas de educação física sempre fingia uma dor de cabeça, uma unha do pé encravada ou qualquer outro problema para me expor o mínimo possível.

Porém, com meus 11 anos comecei a refletir: “Será mesmo que isso está me fazendo bem?”.

No meu silêncio, sempre tive muita determinação, disciplina e maturidade. Resolvi, sozinha –ninguém da minha família era fisicamente ativo –, buscar esportes individuais. Primeiro, comecei a correr. Corria sem parar, muito e até demais. Foi uma forma que achei de escape para minha mente. Aquilo fazia eu me sentir bem. Na minha cidade tinha uma pista de corrida e acabava encontrando as mesmas pessoas todos os dias. Isso me fez ter rotina, conhecer pessoas que gostavam de fazer esportes individuais e também viver um pouco em seu silêncio.

Cada dia que passava, melhorava mais a minha interação social até que, junto com a corrida, entrei no jiu-jítsu –lutei em campeonatos e treinei durante anos até parar na faixa roxa — e capoeira regional e Angola (treinei por três anos). Essas modalidades me fizeram crescer, me expunham de uma forma que eu me sentia bem, me fizeram enfrentar meus medos e minhas inseguranças, além de aumentar minha relação com as pessoas.

O esporte na minha vida foi um divisor de águas. É claro que não aconteceu de um dia para o outro, mas foi um processo e uma construção. Contei essa história, pois tem tudo a ver com um novo estudo de junho de 2018  realizado por pesquisadores do Amsterdam Public Health Research Institute, VU University Medical Center Amsterdam intitulado por “Association between physical exercise and psychosocial problems in 96 617 Dutch adolescents in secondary education: a cross-sectional study”.

Esse estudo realizado com quase 100 mil adolescentes em ambiente escolar utilizando um questionário transversal analisou a associação entre a prática de exercícios físicos e os problemas psicossociais, que é o convívio social do indivíduo.

Os adolescentes considerados fisicamente ativos –que praticavam algum tipo de exercício pelo menos duas vezes por semana — tinham menos problemas com relação a sociabilidade e amizade, em comparação aos sedentários.

É claro que esses problemas psicossociais sofrem influência de muitos fatores, como genéticos e biológicos, traços de personalidade e hábitos de vida. Mas o estuda deixa muito claro que a prática de exercícios físicos podem atenuar esses problemas.

Os problemas psicossociais levam a uma cascata de outros problemas, como redução do desempenho escolar, dificuldade de comunicação com outras pessoas, dificuldade de exteriorizar seus pensamentos e ideias, redução do desenvolvimento mental, além de sintomas depreciativos, de inferioridade e exclusão.

O que chama a atenção no estudo é a grande quantidade de voluntários analisados e os resultados significantes:

  • A pontuação média avaliada do Questionário de Pontos Fortes e Dificuldades dos adolescentes ativos foi menor que a dos inativos. Adolescentes que eram inativos tinham 12% mais problemas psicossociais em comparação com os jovens ativos.
  • Os adolescentes inativos apresentaram maior pontuação nos problemas emocionais das subescalas e problemas com os pares.
  • Verificou-se que os adolescentes fisicamente ativos apresentam menos problemas psicossociais, comparados aos adolescentes inativos. Essa associação não é apenas significativa, mas há uma indicação de que também tem relevância clínica.

Vale enfatizar que o problema psicossocial deve ser analisado com olhos clínicos. É claro que a percepção da escola, familiares e profissionais envolvidos é primordial para detecção precoce e início de uma intervenção. Para isso é necessário um pouco de sensibilidade e paciência por parte das pessoas próximas.

Referência:
– Kuiper, J.; et al. Association between physical exercise and psychosocial problems in 96 617 Dutch adolescents in secondary education: a cross-sectional study. European Journal of Public Health; 28 (3) Págs: 468 – 473; 2018