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    A música e a literatura  inventiva  de Luiz Teixeira

 

A música e a literatura inventiva  de Luiz   Teixeira

 

O Dr. Luiz  Carlos Alves Teixeira é compositor, médico e empresário; foi ex-Secretário da Cultura, ex – Secretário da Saúde, e atualmente Secretário da Infraestrutura da Prefeitura de Palmas.

 

 

POR Nilo Alves

A que segue é uma das nossas melhores entrevistas de todos os tempos, que denota a inteligência, a cultura, a sensibilidade e a sabedoria do Dr. Luiz Teixeira, que a sua humildade e timidez escondem no seu dia a dia, sempre tão atribulado com o atendimento dos seus pacientes e o cuidado com suas empresas e com suas inúmeras outras atividades, dentre as quais as filantrópicas, que muitas pessoas, mesmo de seu convívio diário, desconhecem. Estas são apenas algumas das múltiplas facetas de um Cidadão com “C” maiúsculo, um Ser Humano exemplar, que, mercê de seus próprios esforços, lutou arduamente para alcançar, como afirma na entrevista, o Olimpo, merecidamente. E sem depender de quaisquer benesses, contando unicamente com os meios de que dispunha e da sua garra, bem como do exemplo dos pais, de quem é o orgulho, com toda a Justiça. Que a sua História de Vida se espalhe como a luz de um resplandecente farol, para servir de guia e inspiração às e aos jovens que, frequentemente, se desesperam ante os menores obstáculos, sejam eles reais, ou, na maioria das vezes, imaginários, deixando de realizar os seus potenciais e talentos. Manifestamos aqui nossa entusiástica homenagem e respeito ao Dr. Luiz Antônio. É uma imensa satisfação a oportunidade que temos de apresentar à Sociedade Brasileira uma pessoa tão iluminada. Parabéns, Dr.!

 

 Fotos: Glauber Mattos.       ENTREVISTA EXCLUSIVA

AO JORNAL PÁGINA ABERTA

 

 

Como aconteceu o seu despertar para a composição de letras musicáveis? Aconteceu já desde muito cedo, aos 13 anos mais ou menos, quando eu ensaiava escrever algumas poesias na adolescência, embora o exercício de compor as letras e as melodias, propriamente ditas, só depois da formação universitária e já aqui no Tocantins.

 

Isto foi em que ano?  Mais ou menos com 13 anos em 1981.

 

Quais foram os artistas que gravaram as suas canções? Grandes expoentes do Tocantins, como por exemplo: Keila Lipe, William Borjazz, Melo Júnior, Quésia Carvalho, Chico Chokolate, Vânia Kamell, Ricardo Dual, Mônica Soares, Ivo Roque e Erasmo, entre outros. Em nível nacional foram Oswaldo Montenegro, William do Placa Luminosa e Nila Branco.

 

               Nila Branco /William Borjazz            William do palaca Luminosa

 

Nila Branco / William Borjazz                  Késia Carvalho

 

Chico Chocolate                                           Keila Lipe

 

 

Naquela época Palmas era uma capital acanhada, sem recursos tecnológicos. Como você fazia para gravar as suas músicas?  O primeiro CD, chamado “Em Transe” e o segundo, chamado “Imagem”, do Borjazz, foi gravado em Brasília no estúdio ZEM; depois tive a felicidade de conhecer o Renato Moreira, uma mente brilhante, que me adotou e é, para mim, um grande incentivador além de meu parceiro em grandes composições. Para mim o Renato é um dos melhores arranjadores do Brasil.

 

Qual foi o seu primeiro sucesso? O meu primeiro grande sucesso foi a música “Lamento”, interpretada por um dos maiores intérpretes do Brasil, William Borjazz.

 

Onde é a sua fonte de inspiração para compor letras e melodias de músicas?  Do cotidiano, das desilusões, das mazelas da vida, das coisas boas da vida e principalmente dos dilemas existenciais que carrego comigo.

 

Como você administra a solidão?  Rssss!… Eu amo a solidão, quase não tenho tempo para ela, aliás motivo pelo qual não tenho produzido nada na literatura e música.

 

Decifrar o código da inteligência na criação da música nos faz entender que não somos deuses. Por que você insistiu em compor por todos esses anos?  Eu não insisto, só componho quando tenho vontade, por isso acontece a alternância de fases e estilos nas minhas composições. “Eu sou um cara que me adapto as épocas e aos papos atuais sem nenhum pudor ou preconceito, não me sinto violado por isso”. No meu canal do You Tube vocês encontrarão um Luiz que vai da Bossa Nova ao Funk com a maior tranquilidade; quem não gostar dessa ou daquela música pula de faixa ou track… Rssss!

 

Não é um dever, mas um direito de cada ser humano que busca ter uma mente brilhante e procura a excelência emocional, social e profissional. Você naquela época levava a sua música a sério?  Tudo que eu faço é feito com muita seriedade e intensidade. Sou uma pessoa muito exigente com os outros e principalmente comigo mesmo, quem me conhece sabe…

 

O que é a  música para você?A música pode, deve e é uma grande companheira quaisquer que sejam as situações da vida. Imagine um casamento, aniversário, velório, sala de espera, uma novela, um filme, uma festa, uma viagem de carro, um batizado, sexo, academia de ginástica enfim, em praticamente todas as atividades a música está presente. Na solidão não poderia ser diferente, é a trilha sonora dos diversos momentos que fazem com que eles sejam inesquecíveis. Talvez as minhas músicas estejam embalando, na alegria ou na tristeza, a existência de alguém.

O que é fazer sucesso para você?  Não sei, não experimentei essa situação ainda… Rssss! Mas para mim deveria ser tão somente o reconhecimento, por mérito, de alguém por algo exitoso que tenha feito. Acho que deve ser bom, mas não sou muito afeito aos holofotes, apesar de entender que “Todo mundo tem o seu pavão dentro de si”.

                                                                                           

 

” A Anita é um bom exemplo de

competência e autogestão de                                                                                                                                                                      carreira… mas é claro…

 

 

 

Em que patamar você vê a música feita em Goiás e no Tocantins?  Depende de qual gênero você está se referindo. Se você fala do sertanejo, esse está se despontando, Henrique e Juliano estão nas galáxias. Se estiver falando dos demais, continuam no mesmo patamar de sempre.

 

 

“Como o povo brasileiro, em sua grande maioria,

não tem conteúdo intelectual para entender e interpretar um

texto mais elaborado, ele consome apenas os bits, os ritmos

dançantes e as letras de músicas de fácil alcance.

Isso independente do grau de escolaridade ou

classe social. Não posso deixar de dizer que há exceções”

                                                                                                

 

Você é afrodescendente, compositor, médico e empresário bem sucedido. Isto ajuda na sua arte de criar canções belíssimas?  Muito pelo contrário… Rssss!!! Me falta tempo para me dedicar à arte. Geralmente, nesse universo que você citou, entendem como improdutivo esse tipo de labor e não o levam muito a sério.

 

O que mais lhe incomoda no Brasil?  O brasileiro. Eu mudaria o slogan que diz “Eu sou brasileiro e não desisto nunca” para “Eu sou brasileiro e não aprendo nunca”. Essa história de transferir a culpa sempre para o político ou para os outros tem me desanimado demais. A crise brasileira é eminentemente MORAL, e essa crise só vai se dissipar com o passar de algumas gerações. Mas não quero falar de política.

 

 

                                                                                     

 

                                                                                     

                                                                                          “Se o artista brasileiro não valorizar e

                                                                                            respeitar outro artista nacional em

                                                                                                       prestigiar o seu show e sua arte, nada mudará.

                                                                                            Enquanto o artista brasileiro não descer do

                                                                                        pedestal e entender que ele não é um ser iluminado

                                                                                               e especial que não precisa prestar contas do

                                                                                               dinheiro público que ele captou para o seu

                                                                                                projeto, nada mudará… E assim por diante”

                                                                                                                                                 

 

 

 

Tem muita gente fazendo sucesso passageiro mas que logo desaparecem do mapa da mídia. Por que isso acontece na maioria das vezes no Brasil?  Para mim a música deixou, há muito, de ser arte para se tornar apenas entretenimento. Assim sendo o conteúdo da mensagem ficou raso e por vezes chulo. Os veículos de comunicação, por sua vez, executam aquilo que o povo quer ouvir.

 

 

Se você fosse Ministro da Cultura, qual seria o seu primeiro passo em nível da música brasileira?  Não existe essa possibilidade… (Risos). Não existe um primeiro passo capaz de mudar essa realidade. Várias ações conjuntas teriam que ser implementadas a médio e longo prazos para começarmos a ter resultados, ações essas que não estariam no Ministério da Cultura e sim no Ministério da Educação. “Enquanto o brasileiro não se tornar um patriota ele nunca dará valor à sua cultura e à sua gente”.

 

“Se o artista brasileiro não valorizar  e respeitar  outro artista nacional  em sua diversidade e prestigiar  o seu show e sua arte nada mudará. Enquanto o artista  brasileiro  não descer  o pedestal  e entender  que ele  não é  um  ser iluminado  e especial que não precisa  prestar  contas  do dinheiro  público  que ele captou para o seu projeto, nada mudará… E assim por diante”

 

Como você ver a qualidade da música, especialmente a feita no Tocantins? A música feita aqui é espetacular, vou citar o Lucimar e o Dorivan em nome dos diversos fenômenos que aqui temos, o que não quer dizer que sejam populares, ainda que cantem primorosamente as coisas da nossa terra.

 

 

 

 

“Para mim não existe a verdadeira música popular

brasileira. Ela ainda está por ser descoberta pelo João,

pela Maria ou pelo José, são infindos os acordes, os

sentimentos e a criatividade do brasileiro”

                                                                                                  

 

 

 

O que falta para a música autoral feita no Brasil acontecer no cenário internacional?  Falta profissionalismo no âmbito empresarial; a Anitta é um bom exemplo disso, mas é claro que a língua é uma barreira quase que intransponível para que isso aconteça. Qualidade e bons artistas temos de sobra.

Antigamente tínhamos guerras horrorosas, morríamos  de resfriao, tínhamos trabalho escravo em alta esta escala, os fumantes  eram  a maioria, direitos trabalhistas  precários e por aí vai…

Por que a sociedade moderna está se tornando uma indústria de pessoas doentes?  Você acha? Eu penso diferente. A expectativa de vida está cada vez maior no mundo inteiro. Com isso as doenças degenerativas e os cânceres aparecem com muito mais evidência.

“Antigamente tínhamos guerras horrorosas,

morríamos de resfriado,

tínhamos  trabalho escravo em alta escala, os fumantes  eram a maioria,

direitos trabalhistas precários e por aí vai…”

                                                                                         

 

 

Em que mundo você vive? Eu vivo num mundo lindo e isso se dá não porque tenho dinheiro e conhecimento, conquistei com muito trabalho e dedicação tudo que tenho; para um filho de empregada doméstica e cobrador de ônibus atingi o Olimpo.

 

 

Explique melhor – Acho que vivemos conforme o que é o nosso interior; índole e caráter são independentes do dinheiro, da fama ou do poder que tenhamos. Conheço pessoas muito humildes que invejo, que são mais felizes e sadias que eu.

 

Quem olha para baixo ver o mundo do tamanho dos seus passos. Quem olha para o alto vè o mundo espetacularmente grande, um mundo de oportunidades para ser explorado. E como você ver o mundo da música? Eu vejo o mundo da música como sendo um mundo ilimitado e infindo em suas possibilidades, livre de quaisquer amarras e objeções, onde o compositor pode utilizar o lúdico para expressar os seus delírios, desejos e mazelas sem nenhum tipo de culpa.

 

O que é a verdadeira música popular brasileira para você?  Para mim não existe a verdadeira música popular brasileira. Ela ainda está por ser descoberta pelo João, pela Maria ou pelo José, são infindos os acordes, os sentimentos e a criatividade do brasileiro.

 

Por que os autores mais consagrados pela crítica, no Brasil, permanecem desconhecidos do Público? Tá falando de mim… (risos).  Talento é apenas 10% do sucesso na minha opinião. Se não houver um grande profissional na produção de tudo, as chances se tornam muito pequenas. Bons intérpretes e compositores há aos montes, vide THE VOICE.

Você pode citar um exemplo? Um bom exemplo que costumo citar (opinião bem pessoal) é o que aconteceu com a MPB e o Sertanejo. Lembro-me que nos show do João Gilberto ninguém podia dar um pio na platéia que vinha logo um esporro, assim como tem uns que se os orixás não autorizarem o show não é feito.

 

 

                                        “O pessoal da MPB se colocou num pedestal e não devolveram, em

                      alguns casos, não era uma regra, para a plateia, um espetáculo

                         bem produzido, não havia uma interação e

                               um cuidado com o público como por exemplo, os sertanejos hoje tem.

                                        O pessoal do sertanejo apresenta mega espetáculos. O respeito que  com o público vai desde o                                          figurino, cabelo, tempo de duração de

                                         um show, etc., etc., etc., até o cuidado com

                                    a qualidade do som e luzes…”

                                                                                                         

 

E o que é mesmo o sucesso? Enfim, eu poderia ficar tempos aqui fazendo considerações. Volto a afirmar que não sei o que é sucesso, no entanto, a música foi sim, um ensaio para a literatura. Nessa modalidade de arte me encontrei de forma a poder esmiuçar bem mais as minhas ideias e pensamentos. Escrever me agrada, mas é um processo criativo bem mais complexo e demorado, pois há que ter um começo, um meio e um final muito bem elaborado.

 

E quando a porca entorta o rabo? Quando a porca torce o rabo é literalmente uma piada… (risos). Sem que me falte a modéstia, eu que sou um cara muito ponderado, autocrítico e tímido, arrisco-me a dizer que é uma obra fantástica, que se escrita por um Ariano Suassuna, seria um estrondo em nível nacional, porém, quando a concebi não tive a maturidade necessária para deixar maturar melhor a trama e, para piorar, contratei uma editora meia boca que destruiu a edição. Sobra a meu favor, no entanto, que fui aprovado por um Edital do Banco da Amazônia, e tinha data limite para apresentação do livro, por isso tamanha correria.

   

 

    “Na verdade não sei dizer se

        minhas obras tem ou não o

          poder da transformação, no entanto

  já ficarei deveras

          feliz se elas não deformarem

    nenhum ser humano”

 

 

 

Tenho comigo que o leitor procura a diferença e o descobrimento (capacidade de trazer à tona algo encoberto). Que diferenças e descobrimentos os seus livros produzem?  Cada obra toca um leitor ou ouvinte de formas diferentes. A capacidade de transformação que cada uma pode causar depende do quanto a pessoa está aberta e receptível ao que está sendo transmitido a ela. O momento de vida de cada um também é responsável por fazê-lo ou não se ater ao que está acontecendo no seu entorno. Na verdade não sei dizer se minhas obras tem ou não o poder da transformação, no entanto já ficarei deveras feliz se elas não deformarem nenhum ser humano.

 

A qualidade de um livro depende da musicalidade das frases (forma) e do potencial de reflexão do autor/narrador. A história contada importa mais do que a forma? Acho que o que importa realmente é se a mensagem estará sendo passada ou não. Qualquer tipo de padronização ou embotamento não contribui com a arte e impossibilita que novas expressões artísticas possam surgir.

 

 

 

“Nessa modalidade de arte me encontrei de forma a poder

esmiuçar bem mais as minhas ideias e pensamentos.

Escrever me agrada, mas é um processo criativo bem

mais complexo e demorado, pois há que ter um

começo, um meio e um final

muito bem elaborado”

                                                                                       

 

 

O leitor do século XXI, época de relativismo, acredita mais em livros e autores que se apresentem como relatos de algo real? Não concordo! Basta vermos as series e filmes do cinema baseados em diversos livros que são a ficção da ficção. Acho que isso se aplica bem mais às redes sociais. Não sei que tipos de descobrimentos meus livros causam. Essa é uma questão muito pessoal revelada singularmente no momento da apresentação da obra ao leitor. De repente não passará de mero entretenimento que rapidamente cairá no esquecimento.

 

 

“Hoje em dia não tenho me dedicado a leitura, na verdade nunca o fui.

A falta de tempo e as cirurgias nos olhos

são as desculpas da hora.

Na minha infância pobre não tive os

estímulos, nem na escola,

muito menos em casa, necessários a me

tornar um bom leitor.

Durante a minha vida escolar li,

a duras penas, os livros que

me eram impostos por força inclusive

do vestibular.

Logo a seguir a minha leitura

foi exclusivamente

voltada ao curso de medicina.

Eram compêndios com milhares de páginas

que me causaram trauma…

Rsss! Agora estou correndo atrás do prejuízo

e meus livros de

cabeceira hoje são Maquiavel e literatura espírita”

 

Colaborou:                                                                               

Fernando Lins/Revisão