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A nova moda nos EUA é fazer teste de DNA e viajar para conhecer seu passado

A nova moda nos EUA é fazer teste de DNA e viajar para conhecer seu passado

Manop1984/Getty Images/iStockphoto

 

Testes de DNA despertam curiosidade de quem quer conhecer mais sobre seus antepassadosImagem: Manop1984/Getty Images/iStockphoto

Shivani Vora

03/02/2019 04h00

Rondel Holder mora em Nova York e trabalha como criador de conteúdo para a revista “Essence”. Um dia, querendo saber mais a respeito de sua ascendência étnica, levou para casa um teste de DNA que comprara da Ancestry. “Sempre achei que fosse do Brooklyn, com raízes granadinas e jamaicanas”, diz.

Só que o resultado contou uma história bem diferente, revelando que grande parte de sua etnia vinha de dois países africanos, Togo e Benin. Dias depois dessa revelação, Holder foi à internet e comprou uma passagem para aquele continente por US$ 3.500.

Ao chegar lá, conta que ficou feliz ao conhecer pessoas de sua idade. “O pessoal com quem fiz amizade era gente como eu, millenials que trabalham, saem e gostam de se divertir”, resume.

Holder faz parte do número cada vez maior de aventureiros que decidem fazer uma “viagem ao passado”, como já está sendo chamada – ou que pelo menos pensam em realizá-la -, por causa dos resultados dos testes genéticos. Eles estão disponíveis por meio de empresas como Ancestry, 23andMe, AfricanAncestry.com e MyHeritage, e geralmente exigem uma amostragem de saliva ou do material retirado da parte interna da bochecha. Os resultados levam entre três semanas e um mês e meio para chegar, via e-mail ou correio.

A Booking.com, um dos maiores sites de reserva de acomodações do mundo, fez uma pesquisa com 21.500 clientes na alta temporada de verão de 2018 edescobriu que 40% queriam fazer ou já tinham feito uma viagem inspirados nos testes caseiros de DNA.

Allegra Lynch, de Santa Rosa, na Califórnia, é funcionária da Travel Leaders Network. Ela diz ter vendido o equivalente a US$ 1,5 milhão nesse tipo de roteiro em 2018, principalmente para a Europa. Em 2017, foram US$ 800 mil. “O volume dobrou porque virou febre entre o pessoal que faz os testes de DNA e quer conhecer suas origens”, diz ela.

Um vídeo exibido online, criado pela agência de publicidade Ogilvy para a Aeromexico, em 2018, recorre à tendência, oferecendo descontos aos norte-americanos que descobriram parte de suas raízes no México. Em meio ao debate sobre a segurança na fronteira, obviamente o anúncio se tornou viral. John Raul Forero, CCO da Ogilvy Latam, confirmou por email que a propaganda foi criada para a aérea no ano passado, mas se recusou a fazer outros comentários. Segundo Paula Santiago, porta-voz da agência, a promoção já não é mais válida.

Embora alguns geneticistas questionem a precisão de tais exames para identificar a ancestralidade geográfica, a genealogista molecular Diahan Southard afirma que os resultados geralmente são rigorosos, com raras exceções. “O detalhamento étnico que a pessoa recebe da empresa depende quase que exclusivamente daqueles com quem o cliente está sendo comparado. Se você é francês, por exemplo, mas a empresa não o testar em relação a muitos compatriotas, então já se sabe que ela não vai realizar um bom trabalho.”

Apesar disso, a facilidade e a acessibilidade estão ajudando o turismo baseado no DNA a decolar, como conta Sarah Enelow-Snyder, editora assistente da firma de pesquisa de viagens Skift. “Dá para comprar uma passagem por menos de US$ 100; claro que, por esse preço, a popularidade do segmento tem tudo para ir às alturas.”

Evita Robinson, fundadora do Nomadness Travel Tribe, grupo de viajantes de cor de uma rede social, confirma um aumento considerável de 2017 para 2018 no número de membros que passaram a discutir testes caseiros de DNA e a planejar viagens baseados nos resultados, sendo Holder um deles.

A própria Robinson fez o exame no ano passado e descobriu que é uma mistura de afro-americanos com caucasianos, tendo ancestrais em diversos países, incluindo Senegal, África do Sul e Irlanda, para onde vai em maio.

Sem dúvida, esse tipo de viagem tem um significado emocional muito grande, mas para os norte-americanos negros o impacto pode ser ainda maior, segundo a dra. Gina Paige, cofundadora do AfricanAncestry.com, especializado em rastreamento genético de descendentes de africanos. “Os negros foram levados da África Ocidental e Central para as Américas e o Caribe. Como resultado, toda a nossa identidade se perdeu. Não há praticamente nenhum registro por escrito até 1870, que foi quando o governo dos EUA começou a registrar informações censitárias a nosso respeito. É por isso que essas expedições à África, em busca das raízes, quase sempre são bastante reveladoras e profundas.”

A Ancestry está dando início a um setor que incluirá viagens privadas e em grupo – sendo que as últimas serão realizadas em parceria com a EF Go Ahead Tours, com roteiros para a Itália, Escócia, Irlanda e Alemanha, liderados pelos genealogistas da empresa. O preço mínimo é de US$ 3.500 por onze dias.

Como parte do pacote, os integrantes dos grupos poderão fazer um teste de DNA antecipadamente e terão uma consulta com o especialista, que, de posse dos resultados e dos registros históricos, revelará a cada um sua origem específica. Na viagem, seguirão um itinerário totalmente voltado para o tema, como museus e portos de onde a emigração para os EUA foi maciça.

A versão privada custa a partir de US$ 2 mil por dia e é criada com base na combinação dos resultados dos testes de DNA e na pesquisa sobre o histórico da família do cliente. “Analisamos uma série de dados, incluindo arquivos de jornal e registros de igrejas, registros militares, certidões de casamento e de óbito. Criamos itinerários que vão aos vilarejos onde os ancestrais do cliente viveram e às igrejas onde se casaram”, explica Kyle Betit, genealogista responsável pela divisão de viagem da empresa.