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POETA PIO VARGAS, LEMBRADO POR NILO ALVES

 PIO VARGAS (1964-1991)

 

 

deve haver uma forma
de concluir sem finalizar
PIO VARGAS

 

 

Por Nilo Alves

 

Pio Vargas e eu, fazíamos uma espécie de parceria nos festivais de poesia falada – sempre éramos os vencedores. Eu fazia a trilha sonora ao violão e ele recitava. Ele nasceu em 64 e eu em 61, com pouca diferença de idade fazíamos história em Goiânia. Eu viajava muito pros interiores de Goiás – cantava nos bares de Iporá que era a sua cidade natal, Minas e Espírito Santo; e quando  retornava, era só alegria… inventávamos momentos históricos  com a turma da música e da poesia.

Certa vez o poeta Ubirajara Galli convidou-me pra fazer um show no seu Poema Bar em sua cidade Pires do Rio, perto de Goiânia. Chegando por lá, tivemos a triste notícia de que o Pio havia subido ao patamar  celestial. Foi ruim cantar naquela noite sem ele em vida. O Bira Galli era também um dos melhores amigos do Pio que lembrou-me de uma recomendação dele que era mais ou menos assim: “no dia que eu for embora daqui, quero que todos os amigos artistas estejam trabalhando”.

Morto aos 26 anos de idade de overdose de cocaína, esse poeta deixou uma obra de  qualidade ímpar. Obra que impressionou inclusive Leminski: “Pio Vargas tem um “eu” coletivo tão forte que chego a vê-lo muitos. De sua poesia consigo extrair a certeza do que digo, insistente: há uma geração recente que usa e abusa da modernidade, fazendo dela o principal elemento a interferir na criação.  Este Pio Vargas me trouxe uma poesia fascinante que não se atrela a falsos modelos de invenção, mas flutua, inventiva, com os mais amplos e possíveis signos do fazer poético.”

 

Para deleite dos leitores, aí segue-se alguns de seus versos:

 

 

SUCESSÃO

 

Depois que eu voltar

de dentro das molduras

apago os meus retratos

invento outras figuras

 

convoco os meus fantasmas

convido mil demônios

e dou posse a todos eles

no governo dos neurônios.

 

 

ODE ANALGÉSIVA

 

I

 

a pátria é o embaixo das roupas.

 

é lá que dói e se desfazem

as linhas mínimas do ventre

o lacre avesso do silêncio

e o destino de selo intêmpere.

 

é lá o magazine de medos

onde quem sabe há calado

na caricatura de seus becos

ou no domicílio de seus fados.

 

 

 

 

 

II

 

eu não sei o que floresce

no abandono das pedras

e não me ocorre saber

que objetos compõem

as neuronias vitrines

da dor e suas glebas.

 

há mais de sabor

em não saber

e mais de ardor

em não urdir

o que vai pelas covas

do promontório,

o que fica de espanto

nesse alento provisório.

 

não me ocorre o que fenece

nestes dias rotundos.

o possível deus que me parece

é outro — a réplica do fundo.

ao milagre de ser vário,

o abismo : albergue estacionário.

 

 

Poema 999 (ou: concepção tumular pra que ninguém alegue ignorância):

 

Quando eu morrer

escrevam no meu túmulo:

aqui dorme pio

que era poeta nas horas vagas.

O que distanciou de tudo

pra continuar mudo

com suas amarras

 

Aqui dorme alguém

que era de todos

e pertenceu a ninguém

que imaginava muito

mas só tinha um corpo

que casualmente se tem

que fazia poemas

só para esquecer os dilemas

do que era um e quis ser cem.

 

Pensando bem

escrevam mais:

aqui dorme pio

o que em sendo um

foi quase mil.

 

 

 

O fogo nas vísceras

 

I

 

pode haver o momento

de transportar o súbito fogo

sem haver a ruptura

de gesto e culpa,

flancos do mesmo jogo.

 

o tédio se derrama

em todas as direções

e como flagelo

é incenso nos sentidos

ou fragmento de opções?

pode haver

o súbito fogo

em sendo mero silêncio.

O tédio é bélico:

Ogiava de alvo pênsil.

 

II

 

o que pode haver

de humano no sentimento

senão a inquietação?

todo o resto

é crochê de desejo

desenhando caminhos

na hipótese da emoção.

 

(…)

 

se o flagrante

é uma colisão de evidências

pode haver o momento

de transportar o súbito fogo

no porão de fugas pensas.

 

III

 

o fogo e o tédio

são produtos sem mídia,

salvo suas cores

pródigas e ingênuas

no painel de dores tíbias.

 

pode haver o momento

de palavras ajustáveis

em cada frase,

 

o momento de sombras

em transparente corpoquase

sem que isto denuncie

ruptura de gesto e culpa,

extremos de mesma base.

 

IV

 

cada um se mata

o suficiente

para continuar vivo.

 

cada um possui

a duopção de fogo e tédio,

esses alheios do alívio.

 

contudo,

na dor e seu compêndio,

resta saber

quem existirá depois do incêncio.

 

ANALEPSIA DO ABISMO

 

I

 

enterro vivo meu gesto.

 

até aqui trouxe dias e palavras

como signos ambíguos

débeis mapas

argumentos evasivos

o resumo inconcluso

do que julguei abismo

e superfície.

 

habita o âmago

no mais raso da face:

por isso trago à tona,

elo de sangue e aspereza,

a pugna de meus retratos

atônitos.

 

II

 

mantenho obtuso meu traço.

 

a memória constrói

espúmeos fantasmas

com os quais divirto

o inverno de meu plasma.

 

esse cotidiano agrário

foi o que sobrou como futuro

o meu sangue sem calvário

regando vales no escuro.

 

III

 

interno e vasto é meu grito.

 

até aqui trouxe dois olhos

e a visão cíclope dos pesadelos

como quem espalhou lâmina e dilúvio

para envenenar

o próprio espelho

ou se ferir em gumes turvos.

 

viver é um risco

na ordem dos calendários.

 

por isso abrigo incerto mangue,

condomínio de alheios viventes,

para manter a humanidade mesma

nos outros eus mais diferentes.

 

IV

 

mantenho obscura entrega.

pouco importa

um punhado de vales

para o adejo da carne.

 

é bem outra

a personagem que me assombra:

a dor em vestes dúbias

no endereço noturno

da face plúmbea.

 

Fonte:

Molho livre

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