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Como as ideias de Zygmunt Bauman podem cair nos vestibulares

Como as ideias de Zygmunt Bauman podem cair nos vestibulares

 

O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman morreu em janeiro de 2017Imagem: Michal Kamaryt/AP Photo

Carolina Cunha

Colaboração para o UOL

26/11/2019 04h00

RESUMO DA NOTÍCIA

  • O sociólogo e filósofo polonês é conhecido pelo conceito de “modernidade líquida”
  • Suas ideias refletem sobre temas como o consumismo, a globalização e as relações humanas
  • Bauman é citado nos vestibulares como referência para explicar fenômenos da atualidade

Tudo é líquido. Você já deve ter visto em algum lugar essa expressão ser usada para evocar os laços frágeis do mundo contemporâneo. O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) é conhecido pelo conceito de “modernidade líquida”, no qual ele expõe os dilemas da sociedade em um mundo cada vez mais incerto e movediço.

O pensador das ciências humanas já apareceu em diferentes vestibulares. “Em provas como Fuvest, Unesp, Unicamp e Uerj, os textos do autor têm sido usados para ilustrar questões nos campos da sociologia, da filosofia e das linguagens. O candidato precisa estar mais atento à interpretação da questão do que em decorar os conceitos de Bauman”, diz Marco Beltri, professor de sociologia do colégio CEL, do Rio.

O filósofo também já foi bastante utilizado como repertório cultural nas redações dos últimos anos. Isso porque os conceitos da obra de Bauman dialogam com a sociedade contemporânea, podendo ser usados para explicar vários aspectos e fenômenos da atualidade.

As ideias de Bauman refletem sobre a sociedade de consumo, o medo, a vida e o tempo, ética e valores humanos, as relações afetivas, a globalização e o papel da política. “Trata-se de um pensador humanista, pois a grande questão dele é a condição humana. Ele aborda questões de uma forma clara”, diz José Maurício Fonzaghi Mazzucco, professor de filosofia, sociologia e geografia do Objetivo.

“O autor pode ser cobrado ou citado em uma redação de vestibular. Caso ele seja citado, tem que tomar muito cuidado para não descontextualizar as suas frases. Para citá-lo, precisa conhecer realmente o pensamento dele. Se não couber naquele tema, pode ser até perigoso citar Bauman”, afirma Mazzucco.

A modernidade líquida

“A única certeza é a incerteza”, diz Bauman. Em 2000, o pensador publicou o livro “Modernidade Líquida”, no qual lançou o conceito de mesmo nome. Os líquidos, diferentemente dos sólidos, mudam de forma o tempo todo, mas conservam algumas de suas características.

Bauman usa a ideia de fluidez, a qualidade de líquidos e gases, para fazer uma metáfora sobre o momento histórico em que vivemos. Nos tempos líquidos, as relações se tornam cada vez menos sólidas e estáveis. Vivemos mudanças nas instituições, na política e nas identidades. No entanto, não existe uma mudança absoluta, ainda estamos no processo de transformação.

“Bauman elaborou um conceito essencial para a análise e reflexão da sociedade pós-moderna. Segundo ele, os laços de sociabilidade humana passam por uma profunda transformação. Ele também aponta que vivenciamos o fim da perspectiva do planejamento a longo prazo. Assim, as relações humanas se tornam fluidas, vazias de sentido e de humanidade”, diz Marco Beltri.

A Idade Moderna floresceu após a Revolução Industrial (que ampliou o modelo capitalista) e a Revolução Francesa (que lança as bases da organização política moderna). Bauman identifica que, no final do século 20 e início do século 21, é inaugurada uma nova forma de vida moderna. Acaba a “modernidade sólida” e começa a “modernidade líquida”.

Em seu primeiro livro, “Mal-Estar da Pós-Modernidade”, Bauman parodia Sigmund Freud (1856-1939), autor de “O Mal-Estar da Civilização”. A tese freudiana é que, na Idade Moderna, os seres humanos trocaram liberdade por segurança. O excesso de ordem, repressão e a regulação do prazer gerou um mal-estar, um sentimento de culpa.

Para Bauman, “a modernidade sólida tinha um aspecto medonho: o espectro das botas dos soldados esmagando as faces humanas”.

“A modernidade líquida é uma oposição à racionalidade cartesiana, marca da modernidade sólida. Para ele, esse período trazia instituições excessivamente estáveis e rígidas. Em busca de ordem e progresso, causaram mal-estar”, diz o professor José Maurício Mazzucco.

Pela estabilidade do Estado, da família, do emprego ou de outras instituições, aceitava-se um determinado grau de autoritarismo. Segundo o sociólogo, a marca da pós-modernidade é a própria vontade de liberdade individual, princípio que se opõe diretamente à segurança projetada em torno de uma vida estável.

No campo da política, as mudanças se caracterizam pela maior fragilidade do Estado. Por exemplo, se antes a população da Europa podia contar com o modelo de Estado de bem-estar social, hoje o Estado perde força. Os serviços públicos se deterioram e muitas funções públicas são deixadas para a iniciativa privada e se tornam responsabilidade dos indivíduos. Outro exemplo é o fim dos modelos de Previdência.

Bauman identifica uma crise da democracia e o colapso da confiança na política. “As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas”, escreve o sociólogo. Para ele, a vitória eleitoral de candidatos como Donald Trump nos EUA é um sintoma de que a retórica populista e autoritária ganha espaço como solução para preencher esses vazios.

Para Bauman, uma das grandes fontes de angústia atualmente é o conflito entre a busca pela permanência e uma impermanência constante. O autor entende a crise como sendo um tempo em que o velho já se foi, mas o novo não tem forma ainda. “A pós-modernidade expressa essa liberdade. Só que essa liberdade que é buscada pelas pessoas gera conflitos existenciais, maior insegurança e não existe a garantia de satisfação”, analisa o professor José Maurício Mazzuco.

Sociedade do consumo

Bauman observa que o século 20 sofreu uma passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo. Isso não significa que não exista uma produção, mas que o sentido do ato de consumir ganhou outro patamar.

“O autor observou a passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo. Com isso, passamos por um processo de fragmentação da vida humana, a percepção de coletivo dá lugar a um tipo de individualismo acentuado”, explica Marco Beltri.

No livro “Vida para Consumo”, Bauman concentra sua análise da sociedade contemporânea como uma sociedade constituída essencialmente por consumidores. Ele afirma que a sociedade transforma gradualmente consumidores em mercadorias.

Além da satisfação de necessidades, o ato de consumir passou a ter um peso importante na construção das personalidades. Bauman afirma que vivemos em uma sociedade marcada pelo conflito ser versus ter. O homem passa a se expressar pelo que compra ou tem, elementos definidores de sua própria identidade.

Um dos sintomas desse fenômeno seriam as redes sociais, nas quais os usuários montam perfis e se relacionam como se fossem “produtos”. Outro exemplo é consumo de luxo, no qual marcas e grifes se tornam um símbolo de quem somos. Sua compra também significa um status social, o desejo de um reconhecimento perante os outros.

Consumir também significa descartar. Temos acesso a tudo o que queremos e ao mesmo tempo as coisas se tornam rapidamente obsoletas. “O problema não é consumir; é o desejo insaciável de continuar consumindo”, diz Bauman. Tanto que o descarte de lixo se tornou um dos grandes problemas da sociedade contemporânea.

Relações pessoais

O homem sem vínculos é uma figura central da atualidade. A modernidade líquida traz consigo uma fragilidade dos laços humanos. No livro “Amor Líquido”, Bauman investiga de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança sempre maiores.

Por exemplo, nos séculos anteriores, os casamentos duravam muitos anos. As pessoas também ficavam mais tempo em empregos. Atualmente, a própria noção de relacionamento está mais fluida e muitas vezes sem vínculos mais fortes. Exemplos são os formatos de morar junto, o “ficar” e aplicativos como o Tinder.

Bauman analisa os relacionamentos em redes virtuais e mostra como é rápido essas relações se desmancharem —em muitos casos, basta um clique. Para ele, os indivíduos estão sempre aptos a se conectarem e desconectarem conforme a vontade, o que estimula a dificuldade de manter laços a longo prazo.

Se os vínculos humanos têm a chance de serem rompidos a qualquer momento, isso causa uma disposição ao isolamento social, onde um grande número de pessoas escolhe vivenciar uma rotina solitária. Isso também enfraquece a solidariedade e estimula a insensibilidade em relação ao sofrimento do outro.

O filósofo também faz um alerta: além das relações amorosas, nossa capacidade de tratar um estranho com humanidade é prejudicada. Desconfiar de tudo e de todos. Como exemplo, o autor examina a crise na atual política imigratória de diversos países da União Europeia e a forma como a sociedade tende a creditar seus medos, sempre crescentes, a estrangeiros e refugiados.

Turistas e vagabundos

José Maurício Mazzuco também lembra o conceito de “turista” do ponto de vista de Bauman. Em um mundo globalizado, as distâncias são menores, o que possibilita fluxos intensos de viagens. Para muitos, a mobilidade é o que faz valer a pena viver. Mas quer estar em todos os lugares da Terra, fruir suas sensações, sem que haja qualquer espécie de compromisso local no momento de seu trânsito por aquele território.

“Nada contra o turismo, que é importante para a economia. Mas Bauman evoca a imagem do ser humano hoje como a de um turista. Um sujeito hedonista. Ele quer experimentar o mundo, mas não quer deixar marcas ou compromissos”, diz o professor.

Bauman também fala da figura dos “vagabundos”, que estão expostos a esses estímulos, mas não possuem condições financeiras para viajar, como os jovens de classe média baixa ou periferia. Eles dão valor a essas viagens simplesmente pelo acontecimento. Bauman diz que os “vagabundos” também fogem da fixidez local, mas não possuem acesso ao consumo. Para eles, ser local num mundo globalizado seria sinal de privação.

Tempo de agora

Uma das ideias de Bauman é a perda da temporalidade. O tempo não é percebido como algo contínuo. Ele se relaciona com a cultura do agora. Um dos efeitos sentidos é a instantaneidade —tudo tem que ser para agora, sem pensar no amanhã. Isso pode causar uma sensação de frustração, caso a pessoa não consiga na hora o que ela deseja.

“O fato de as relações serem líquidas, é como se a gente tentasse pegar a água com as mãos. A gente acaba se molhando, mas não conseguimos reter a água. É a ideia de que não conseguimos fazer projetos de longo prazo. Os fatos de as relações não amadurecerem também significa que nós não amadurecemos. É como se, na verdade, vivêssemos a vida em episódios, não em um filme longa-metragem”, afirma José Maurício Mazzucco.

Medo líquido

Para Bauman, o medo é uma das marcas do nosso tempo e ele analisa a influência desse sentimento em nossas vidas. Segundo ele, o medo pode ser um objeto de estudo sociológico, pois pode ser fabricado e instalado no sujeito. Temos medo de tudo: de perder o emprego, da violência urbana, do terrorismo, da exclusão social.

O pensador aponta que o medo hoje pode vir de qualquer parte do globo, ele é difuso e não fica no mesmo lugar. Além do medo físico, existe o medo virtual, como dos hackers e haters das redes. Isso cria uma necessidade de vigilância constante, a qual aceitamos nos submeter para ter mais segurança.

“Essa obsessão deriva do desejo, consciente ou não, de recortar para nós mesmos um lugarzinho suficientemente confortável, acolhedor, seguro, num mundo que se mostra selvagem, imprevisível, ameaçador”, escreve Bauman no livro “Confiança e Medo na Cidade”.

Bauman relaciona a situação de desemprego dos europeus ao aumento do ódio contra os imigrantes. Ao mesmo tempo, manter esse medo aceso seria uma estratégia de poder para determinados grupos, como políticos de discursos nacionalistas e xenófobos, que “captam” o medo da população para manter grupos políticos no poder.

Ele também analisa a imagem do enfraquecimento do Estado, quando os seguros desempregos são trocados por câmeras e policiais fortemente armados. A partir do momento em que o Estado deixa de ser o garantidor da segurança social e da existência digna, medidas de proteção individual ganham espaço.

O resultado de tanto medo seria um comportamento voltado para “dentro”. De shopping centers, carros blindados, condomínios fechados. A arquitetura das cidades também reflete esse sentimento, com cada vez mais muros e sistemas de vigilância.

Segundo o autor, o mercado transforma o medo em uma fonte de lucros e mercadorias a serem consumidas. Por isso, a sociedade capitalista precisa estimular o medo, para que o consumo apareça como a solução da proteção.

As obras fundamentais para entender Bauman

  • Amor Líquido, 2003.
  • Globalização: As Consequências Humanas, 1997.

  • Modernidade Líquida, 1999.

  • Medo Líquido, 2006.

  • Vida para Consumo, 2008.

  • A Sociedade Individualizada, 2001.

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