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João de Deus é condenado pela primeira vez por crimes sexuais, e pega 19 anos de prisão

João de Deus é condenado pela primeira vez por crimes sexuais, e pega 19 anos de prisão

Denunciado 13 vezes pelo MP de Goiás, por abuso contra 57 vítimas e posse ilegal de armas, médium está preso preventivamente há um ano, e nega as acusações

Médium João de Deus é levado para a prisão por agentes da Polícia Civil Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Médium João de Deus é levado para a prisão por agentes da Polícia Civil Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo

ABADIÂNIA (GO) — O médium João Teixeira de Faria, o João de Deus, foi condenado na tarde desta quinta-feira (19), pela juíza Rosâgela Rodrigues, da comarca de Abadiânia, a 19 anos e quatro meses de prisão, por crimes sexuais cometidos contra quatro mulheres durante atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia.

Foi a primeira condenação de Faria por esse tipo de crime. Ele está preso preventivamente há um ano, no Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia, e já foi condenado por posse ilegal de armas. O médium foi denunciado 13 vezes pelo Ministério Público de Goiás, duas delas por posse ilegal de armas.

Há um ano: João de Deus é acusado de abuso sexual: leia na íntegra relatos de seis mulheres

As outras 11 envolvem 57 vítimas cujos crimes de abuso sexual não prescreveram. Dessas vítimas, 9 foram excluídas do processo pela juíza por considerar que esses casos também já tinham prescrito. O Ministério Público recorre dessa retirada das testemunhas.

Arte: As denúncias contra o médium em números

A sentença tem como base o caso de quatro vítimas, duas delas por violação sexual mediante fraude e outras duas por estupro de vulnerável. Segundo a juíza, Rosângela Rodrigues, responsável pela decisão, as penas já levam em conta a dedução pelo fato de João de Deus ter mais de 70 anos, único atenuante considerado pela magistrada.

— O juiz analisa a culpabilidade, os antecedentes, os motivos e o comportamento. A palavra da vítima se sobrepõe à simples negativa do acusado. Porque, em geral, esses crimes sexuais acontecem às escuras — afirmou Rosângela Rodrigues, em entrevista à imprensa.

A fala não pode ser gravada pelos jornalistas e nenhuma imagem foi autorizada. A defesa de João de Deus pode recorrer da decisão ainda na primeira instância, via embargos declaratórios, e à segunda instância, por meio de uma apelação. A partir de agora, o médium pode ser transferido para uma cela comum.

Leia mais:João de Deus: cinco meses depois, vítimas dizem o que acharam do destino do médium

Pedido de soltura

Um novo pedido de soltura do médium foi negado nesta mesma quinta-feira pela juíza, mas instâncias suaperioes, com o Tribunal de Justiça e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) ainda podem concedê-lo. Rosângela Rodrigues afima que já rejeitou cerca de dez pedidos de soltura de João de Deus.

A magistrada refutou as críticas de morosidade na tramitação do processo. Ela argumentou que há apenas quatro funcionários na comarca de Abadiânia e os processos envolvendo o líder espiritual também são demorados por envolverem vítimas em outros estados.

— A comarca conta hoje com quatro servidores, enquanto tem força-tarefa  do MP, da defesa… Ainda há inúmeros outros processos. É absolutamente impossível (julgar com rapidez), ainda que a gebte trabalhasse só nesse caso — disse.

Ela afirma que a demora de cerca de um ano foi para dar andamento ao ritos exigidos pelo processo, mas que sua sentença, que tem 198 páginas e está em segredo de justiça, levou 15 dias para ser preparada.

Questionada se um caso de abuso sexual julgado por ela em 2013 cuja sentença foi absolvição do médium, não teria acendido um alerta no Judiciário, a juíza defendeu sua decisão

— Um caso isolado, envolvendo uma pessoa reconhecida e admirada no mundo inteiro. Sem testemunhas. Ele foi abssolvido por outros seis juízes — disse.

‘Risco de morte’

Atualmente, no presídio de Aparecida de Goiânia, João de Deus está separado dos outros presos por questão de segurança. A juíza afirma que a transferência para outra cela poderia colocar em risco a integridade do réu, mas diz que a decisão cabe à administração penitenciária.

— Ele corria risco de morte, o que não é interesse de ninguém. A gente quer ver a Justiça acontecer — disse a magistrada, acrescentando que não teme pela própria segurança. — Nunca me vi sob ameaça. Quem procura fazer justiça, não tem que temer. Quando o réu é acusado justamente, lá no fundo ele sabe. Ele só se torna perigoso quando a sentença é injusta.

Mais de 300 mulheres tiveram seus depoimentos tomados pelo MP e pela Polícia Civil, em casos de estupro que vão de 1973 a 2018.

A promotoria de Goiás, que centraliza as denúncias, considera este o maior caso de abuso sexual do Brasil, quiçá do mundo, pelo espaço de tempo (45 anos) e número de vítimas (319), entre as prescritas e não prescritas registradas até agora pelo MP.

Estima-se que, somado este número ao de mulheres que não procuraram a Justiça — entre outras razões, por temer retaliações —, a quantidade de vítimas chegue a quatro dígitos.

João Teixeira de Faria nega os abusos. Em nota enviada ao GLOBO antes do resultado do julgamento desta quinta, o advogado de defesa Anderson Van Gualberto de Mendonça afirma que “João de Deus mantém a sua versão inicial sobre os fatos: não praticou crime sexual contra nenhuma mulher”.

Fama internacional

Famoso pela realização de “cirurgias espirituais”, João de Deus já atendeu políticos, celebridades e altos funcionários públicos do Brasil e do mundo e, desde 16 de dezembro de 2018, está preso preventivamente, após se entregar à Polícia Civil em uma estrada de terra em Abadiânia, no interior de Goiás.

A prisão aconteceu cerca de uma semana após o “Conversa com Bial”, da TV Globo, e O GLOBO mostrarem relatos de doze mulheres que diziam ter sido sexualmente abusadas pelo líder religioso.

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