MARADONA O último adiós

O último adiós

ESPORTE

O último adiós

Com vida cercada de polêmicas, o argentino Maradona, um dos deuses do futebol mundial, morre nesta quarta (25)

TALES TORRAGACOLUNISTA DO UOLDavid Cannon/Getty Images

A bola só foi bola quando a chutei”.

A frase descreve de corpo e alma Diego Armando Maradona Franco: genial e pretensioso, irreverente, autodestrutivo, heroico e bufão. Nesta quarta-feira (25/11/2020), ele deixou o mundo mais triste, criando um vazio na história do futebol e nos corações de argentinos e fãs que tiveram o privilégio de vê-lo brilhar.

No início do mês, ele passou por uma cirurgia cerebral. Voltou para casa e, 20 dias depois, sofreu parada cardiorrespiratória. Maradona morreu aos 60 anos na Buenos Aires onde nasceu e dançou os tangos mais tristes. Suas maiores alegrias foram vividas bem longe dali, na Itália ou no México, onde o Diez deixou uma inesquecível marca nas Copas do Mundo, como o UOL Esporte resgata agora.

Longe dos gramados, sempre foi uma figura polêmica. Foi pego no exame antidoping na Copa do Mundo de 1994, viveu parte da vida em meio ao vício em cocaína e passou por diversas clínicas de reabilitação. Nos últimos anos, o corpo cobrava as dívidas pela vida de excessos. Até que o tempo fez o que muitos defensores não conseguiram: o parou.

David Cannon/Getty Images

Fora da Copa de 1978, na Argentina

Maradona tinha apenas 17 anos quando soube que não jogaria a Copa do Mundo disputada na Argentina, em 1978. Estreara com a camisa azul e branca mais de um ano antes, em 27 de fevereiro de 1977, contra a Hungria, na Bombonera. O Pibe de Oro tinha então 16 anos e 4 meses e vestia a camisa 19.

Já era Maradona, embora somasse apenas onze jogos e dois gols pelo Argentinos Juniors, clube pelo qual começou a desfilar a sua capacidade de escolhido dos deuses do futebol, até o começo de sua história com a seleção.

Diego sempre considerou o técnico César Luis Menotti um pai. Também por isso, o técnico relutou tanto em não o incluir na lista de convocados para a Copa de 1978. “Não tinha escolha. Precisava de homens, não de um menino, como era Diego”, repete sempre que é questionado sobre as razões pelas quais Maradona ficou de fora.

Poderia ter jogado no mundial de 1978. Estava afinado como nunca. Chorei muito, senti como uma injustiça. […] O pior foi quando voltei a minha casa. Parecia um velório. Choravam minha velha, meu velho, meus irmãos… esse dia, o mais triste da minha carreira, jurei que iria ter revanche. Foi a maior desilusão da minha vida, me marcou para sempre

Diego Maradona

picture alliance/picture alliance via Getty Imagepicture alliance/picture alliance via Getty Image

Mundial na Espanha em meio à Guerra das Malvinas

A loucura argentina na virada dos anos 1970 para os 1980 era capaz de provocar situações incrivelmente estranhas. O plantel que foi ao Mundial de 1982 saiu de Buenos Aires acreditando numa versão da Guerra das Malvinas (conflito armado entre argentinos e ingleses pela soberania do território no Atlântico sul) e chegou à Europa conhecendo uma outra bem diferente.

A então campeã Argentina estreou no Mundial de 1982 no dia 13 de junho, perdendo para a Bélgica por 1 a 0 no Camp Nou, em Barcelona, em uma partida em que Maradona foi perseguido em campo e alvo da violência dos adversários. Exatamente no dia seguinte, os garotos-soldados se rendiam nas Malvinas, congelando de frio, sem ter o que comer, abandonados por seus chefes militares.

E Maradona? Bem, a primeira Copa do Mundo do Diez foi bastante diferente do que se esperava — e, no caso dele, a angústia provocada pela guerra não foi um fator determinante para a decepção sofrida nos campos espanhóis.

Diego tinha apenas 21 anos ao estrear no torneio. Apesar do vigor da juventude, foi justamente a parte física que o traiu. Fez dois gols na fase de grupos e não se destacou. A tensão acumulada por Maradona durante o Mundial acabou sendo descarregada sobre quem não tinha nada a ver com a história. Em seu último lance na competição, ele acertou uma brutal voadora no estômago do brasileiro Batista na derrota por 3 a 1 da Argentina para o Brasil.

Getty Images/Getty Images

“La mano de Dios” e o título Mundial

Foi em 22 de junho de 1986, na Copa do Mundo do México, que Diego Armando Maradona passou de mero jogador de futebol a um prócer argentino como o general San Martín, herói da independência do país. Cerca de 30 milhões de argentinos se esgoelaram diante da TV e comemoraram os dois gols do Diez contra a Inglaterra como se fossem o nascimento de um filho, uma formatura e um casamento, tudo ao mesmo tempo. Com as memórias das Malvinas ainda vivíssimas, argentinos e ingleses se observavam desde o sorteio dos grupos. Já imaginavam que poderiam se encontrar nas quartas-de-final. Se em 1982 o English Team cogitava até sair de cena em caso de cruzamento com os argentinos, em 1986 o confronto em campo não seria evitado.

Maradona jogou no sacrifício — estava com as costas arrebentadas — e mesmo assim destruiu a Inglaterra no segundo tempo. Seu papel naquela partida é visto como a mais emblemática atuação de um jogador argentino em todos os tempos. A começar pelo gol que inaugurou o marcador. Aos 5 minutos da etapa final, Diego saltou na dividida com o goleiro Peter Shilton e escorou com a mão esquerda, para desespero dos ingleses.

La Mano de Dios. O gol de punho, sem dúvida, um dos lances mais famosos da história do futebol, segue sendo tão discutido quanto o segundo tento de Maradona na partida, marcado apenas quatro minutos depois. Foram 55 metros percorridos com a bola grudada ao pé esquerdo, enfileirando ingleses como soldados caídos das Malvinas. Para os argentinos, não há o que discutir: é mesmo o “gol do século”, aquele que “valeu por dois” — e compensou, portanto, o anterior, marcado com a mão, garantem eles.

O segundo título mundial da Argentina veio após as vitorias contra a Bélgica, em que Maradona marcou duas vezes, e Alemanha Ocidental. Na final, bem marcado por Lothar Matthäus, o argentino não balançou as redes, mas, faltando cinco minutos para o fim do jogo, deu o passe para Jorge Burruchaga desempatar. Resultado 3 a 2 para os argentinos.

A polêmica com o gol de mão não foi a única do Diez no México. A ele é atribuída até hoje uma participação direta no afastamento do zagueiro Daniel Passarella daquela seleção. Campeão mundial de 1978, Passarella insinua que foi envenenado para abrir espaço ao novo capitão —o próprio Maradona— e que tal armação sórdida contou também com a mão do técnico Carlos Bilardo.

Acho que gostei mais do primeiro gol. Foi como roubar a carteira dos ingleses.

Diego Maradona

Alessandro Sabattini/Getty ImagesAlessandro Sabattini/Getty Images

Genialidade de Maradona tira Brasil da Copa de 1990

A Argentina chegou à final da Copa de 1990 aniquilada, no limite de suas forças físicas e emocionais. Talvez tenha sido o Mundial mais difícil da história da seleção. Da estreia até a decisão, o caminho foi marcado por violência, tensão e raiva, golpeando profundamente o plantel de Carlos Bilardo.

Nas oitavas, houve o famoso Brasil x Argentina. A genialidade de Maradona enfileirou marcadores de amarelo para deixar Claudio Caniggia na cara do gol de Taffarel, levando a torcida azul e branca às nuvens com aquele gol tão inesperado e improvável. Mas aquela vitória teve também um lado obscuro — e bem mais nefasto, com a entregada a “água batizada” a Branco.

A Argentina ficou com o vice, perdendo para a Alemanha. Antes de sair de campo, Diego recusou o cumprimento de João Havelange. O presidente da Fifa ficou com a mão estendida no ar quando o camisa 10 passou pela entrega das medalhas de prata.

Michael Kunkel/Bongarts/Getty Images

Doping na Copa de 1994

A empolgação era compreensível. Maradona derretera 18 quilos para voar nos Estados Unidos em seu último Mundial. Em que pese a fragilidade da Grécia, a atuação de Maradona, Caniggia e companhia na goleada por 4 a 0 na estreia havia sido impressionante. Gabriel Batistuta anotou o primeiro, o segundo e o quarto gols, mas foi o terceiro, do capitão Diego, que assombrou o planeta, com um chutaço no ângulo.

Parecia que a Argentina conseguira finalmente exorcizar seus demônios: o triunfo seguinte, sobre a Nigéria, também no estádio Foxboro, em Massachusetts, confirmou a curva ascendente da equipe. Mas quatro dias depois, um terremoto deixaria tudo em ruínas. Efedrina. Esta era a substância proibida detectada na urina de Maradona. O fisiculturista Cerrini, oficialmente integrado à delegação por ordem de Diego, foi questionado pelos próprios médicos argentinos e teve seu quarto vasculhado.

Me cortaron las piernas (Me cortaram as pernas)”, afirmou o craque, já isolado em um quarto de hotel em Dallas, evidentemente arrasado por ter sido expulso da Copa por doping.

Juro por minhas filhas que não me droguei para jogar, porque quando treino como treinei, não preciso de nada para jogar. Estava inteirinho

Diego Maradona

Richard Heathcote/Getty Images

Na beira dos gramados na Copa da África do Sul

Custa-se a acreditar, mesmo uma década depois: sim, Diego Armando Maradona, de terno e tudo, foi técnico da seleção argentina em uma Copa do Mundo.

Maradona não era propriamente um técnico. Suas experiências anteriores na função haviam sido simplesmente desastrosas. Em 1994, comandou o Deportivo Mandiyú (uma vitória em doze jogos); em 1995, o Racing (duas vitórias, seis empates e três derrotas).

Na Copa da África do Sul, em 2010, a Argentina integrou o Grupo B, com Nigéria, Coreia do Sul e Grécia. Foram três vitórias tranquilas: 1 a 0 na Nigéria, 4 a 2 na Coreia e 2 a 0 com os reservas sobre a Grécia. Nas quartas de final, nem teve tempo para pensar. Foi um atropelo inesquecível da Alemanha: 4 a 0. “Parece que levei uma porrada do Mike Tyson de um lado e do Muhammad Ali do outro”, definiu Maradona, que foi demitido após a competição.

Não há como negar que meu ciclo terminou. Fiz tudo que tinha de ser feito. Agora, quero desfrutar minha vida com minha família

Diego Maradona, sobre a saída do comando da seleção argentina em 2010

Horacio Villalobos/Corbis via Getty Images

Como nasce uma lenda do futebol

Maradona nasceu em uma família pobre em Lanús, província de Buenos Aires, mas passou boa parte da infância em uma favela na periferia da capital. Lá, iniciou sua relação com aquela que seria sua melhor amiga durante anos. Aos nove anos, já humilhava os garotos da Villa Fiorito e impressionava pela habilidade com la pelota nos pés: dribles rápidos, velocidade e inteligência em campo já eram marcas de Dieguito nos campeonatos infantis.

Depois de atuar pelo Los Cebolitas, time amador afiliado ao Argentinos Juniors, conseguiu, prestes a completar 16 anos, uma vaga na equipe profissional, em que ficou até 1981. Foi contratado pelo Boca Juniors e, na primeira passagem pela equipe mais popular da Argentina, Maradona marcou 28 gols em 44 partidas e chamou a atenção dos gigantes europeus.

Já consolidado como um dos grandes craques do futebol mundial, Maradona foi contratado pelo Barcelona em 1982. Ficou por duas temporadas, marcou 30 gols em 43 partidas, e conquistou três títulos (Campeonato Espanhol, Copa do Rei e Supercopa Espanhola), mas a passagem do argentino em terras espanholas ficou marcada por lesões e desentendimentos com a diretoria.

Eu cresci em um bairro privado. Privado de água, de luz e de telefone

Diego Maradona, em 2004, sobre a infância humilde

Etsuo Hara/Getty ImagesEtsuo Hara/Getty Images

Dono da Bola em Napoli

Com a relação desgastada, em 1984, Maradona saiu pela porta dos fundos do Barça e foi recebido com uma grande festa dos torcedores no Napoli, da Itália, clube no qual atuaria pelos próximos sete anos. Foi no “País da Bota” que Maradona teve os melhores anos da sua carreira – foram 115 gols em 259 jogos. Ao lado do brasileiro Careca e do italiano Bruno Giordano, Maradona comandou o Napoli nas conquistas do Campeonato Italiano, do bicampeonato da Copa da Itália e da Copa Uefa. Ídolo em Napoli, o argentino chegou a pedir para os torcedores napolitanos que torcessem pela Argentina, e não pela Itália, na Copa do Mundo de 1990, que foi realizada no país.

Durante 364 dias do ano, vocês [torcida napolitana] são considerados pelo resto do país como estrangeiros e, hoje, têm de fazer o que eles querem, torcendo pela seleção italiana. Eu, por outro lado, sou napolitano durante os 365 dias do ano.”

Em março de 1991, no entanto, começou o divórcio entre Maradona e o Napoli. Ele havia sido flagrado no exame antidoping para uso de cocaína, o que escancarou o vício do argentino. Suspenso por 15 meses do futebol, foi preso em Buenos Aires no mês seguinte sob efeito da droga e condenado a fazer tratamento de desintoxicação.

Deprimido, Maradona decidiu deixar o Napoli, mas, para isso, precisou enfrentar uma batalha judicial que durou 86 dias depois que o clube impediu sua saída. E Dom Diego só conseguiu a liberação após a intervenção da Fifa. Seu destino: Sevilla, da Espanha, time no qual atuou em apenas uma temporada antes de retornar para a Argentina. Primeiro, para o Newell’s Old Boys e, em 1994, para o Boca Junior, clube onde encerrou sua carreira em 1997 — o anúncio ocorreu no mesmo dia em que completou 37 anos.

Estou cansado de tantas palavras e tolices que saem nos meios de comunicação. Já me acostumei a que me acusem de doping, mas não quero mais que coloquem o meu pai no meio

Diego Maradona

France Presse: AFP/France Presse- AFP

Vícios: lado B do gênio da bola

Maradona admitiu que usou cocaína pela primeira vez em Barcelona, no fim de 1982, quando se recuperava de uma lesão. “Não posso culpar os amigos, a curiosidade foi minha, quem pagou o preço fui eu”, repetiu, sempre que situava o começo do martírio com a droga. Diego sofreu com o vício até 2004 — foram 22 anos de uma roleta-russa que lhe rendeu três internações à beira da morte.

O uso de cocaína e o envolvimento com a máfia de Nápoles foram centrais no filme sobre sua vida lançado no ano passado e dirigido pelo badalado cineasta inglês Asif Kapadia. Na produção, se vê como o Maradona, flamejante da Copa de 1986, se definha, a ponto de virar alguém confuso e cada vez mais desgrenhado, como demonstrou meses antes de se isolar no campo e decidir se preparar para o Mundial de 1994.

Deixada a cocaína para trás, Diego passou a exagerar no consumo de álcool, segundo apontava a família. Sua aparição como torcedor na Copa de 2018 na vitória da Argentina sobre a Nigéria seria um triste presságio do fim. Sua genialidade com a bola nos pés merecia mais que gestos obscenos e olhos saltados como última imagem no evento máximo do futebol.

Reuters/Reuters

Veneração de portenhos cai com polêmicas

O declínio pessoal de Maradona virou assunto cotidiano em Buenos Aires a partir de 1991, depois de sua prisão por uso de cocaína. O antes e depois daquele ano é muito claro na sua veneração que foi se dissipando cada vez mais rápida em Buenos Aires. Os portenhos viram de perto e vibraram como loucos com seu auge, mas se esgotaram com os inúmeros e tristes escândalos. As novas gerações ganharam ídolos esportivos mais comportados, como Lionel Messi.

A mitologia maradoniana juntou pó e perdeu espaço para outras épicas dos gramados, virou assunto para a Igreja Maradoniana e para um punhado de fanáticos, não mais para o calor das massas. O “Pelé ou Maradona?” só existe para quem tem mais de 40 anos.

No interior da Argentina, entretanto, o ritmo sempre foi diferente. Especialmente no norte, de vida mais pausada e campestre. Em certas províncias, onde o rádio que se ouve e o mate que se toma em nada se diferem do inigualável 1986, as “raízes são as raízes”, como prega um dos famosos ditados do país. Lá, Maradona seguiu venerado de maneira intacta até o fim da vida, com imagens quase religiosas adornando as casas e as peles de quem tatua este ídolo transgressor. Diego, de fato, simboliza um mundo que não existe mais.

Getty Images/Hulton ArchiveGetty Images/Hulton Archive

Adiós

O fim da louca vida de Maradona foi marcado por um louco sofrimento. Brigado com as filhas mais velhas e isolado pela pandemia, Diego apresentou um quadro de depressão severa quando foi internado em La Plata. Passou por uma cirurgia no cérebro dois dias depois e teve uma recuperação surpreendente. Conseguiu voltar para casa, mas 20 dias depois, sofreu a parada cardiorrespiratória.

Com o corpo combalido por décadas de excesso e por oito internações longas, Maradona não demonstrava ânimo para lidar com a solidão e com a ausência dos pais, já mortos. A velha rebeldia para enfrentar adversários e poderosos já era uma pálida lembrança.

Foi visto em público pela última vez no dia em que completou 60 anos, sem conseguir andar ou falar com normalidade. Aparentava ter 80. Recebeu uma placa dos dirigentes da AFA e deixou o estádio do Gimnasia minutos depois. Era o seu adeus aos gramados. Um adeus triste e melancólico, até para os altos padrões de tragédia e angústia cultuado pelos argentinos.