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História e Música “A música goiana é invisível, ela não existe”

“A música goiana é invisível, ela não existe”

Com quase mil páginas, obra de Nilo Alves apresenta um recorte de mais de meio século com 150 músicos goianos entrevistados

Nilo Alves: “Ninguém fez um livro parecido. Existem coletâneas e coisas do tipo, mas nada como o resgate musical de uma região. Depois de 30 anos na estrada da música, literatura e jornalismo, consegui fazer algo inédito” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Yago Rodrigues Alvim

Ainda que muitos pelo Brasil, e talvez país a­fo­ra, pensem que o sertanejo é o gênero musical característico da capital do cerrado, e até do que se produz no estado, diversos outros estilos são laborados por aqui. Da cena underground, marcada atualmente por bandas de pop rock e de uma nova MPB le­va­dos a diversos cantos, pela internet e shows em festivais independentes, desdobra-se ainda uma pro­dução datada de tempos atrás. São diversos os cantores que fizeram, e alguns que ainda fazem, a música aqui.

É o que retrata o jornalista e também músico Nilo Alves em “A Verdadeira História da Música Goiânia”, obra de quase mil páginas que faz um recorte de mais de meio século de história, de 1960 aos dias atuais, ao reunir entrevistas de mais de 150 músicos. Kelley Calaça, Nádia Malaspina, Maria Eugênia, Nila Branco, Odilon Carlos, Braguinha Barroso, João Caetano, Odair José, Angelo Máximo, Amado Batista, Lindomar Cas­ti­lho e, dentre muitos ou­tros, Valter Mustafé compõem o livro com suas histórias.

Livro que será lançado no dia 6 reúne 150 entrevistas, no formato ping-pong, com diversos músicos goianos

Foram entrevistados ainda maestros co­mo Joaquim Jai­me, o superintendente de Cul­tura Nasr Chaul, retratado no livro como compositor; a área de canto lírico é representada pelas cantoras Angela Barra e Honorina Barra, e ainda Marcelo Barra. Musicistas, bandas de bailes também compõem a obra, que foi precedida de um minucioso estudo de quase cinco anos.
Foi por participar desse ínterim que Nilo deu vida à obra. Ele conta que percebeu a potencialidade e a oportunidade que seria realizar o trabalho, até então inédito, de recortar por meio de relatos em primeira pessoa a história da música de uma região. Segundo ele, no entanto, não foi um trabalho fácil. Muitos recusaram falar, com seus motivos diversos. Mas, na labuta, foram muitas as conversas, algumas que chegaram a durar cinco horas.

“Os próprios músicos foram criando uma rede, pois um comentava com outro sobre o projeto ou me indicavam outros contato, dos quais eu corria atrás. Dentre os entrevistados, alguns nem moram mais na cidade. São músicos diversos que contaram suas histórias e se emocionaram, verteram lágrimas até”, relata.

Com incentivo da Lei Municipal de Cultura, o livro é feito em ping-pong e, dele, apreende-se que a música por aqui feita é de uma realidade nada fácil, bem como a que se vê hoje. Eram inúmeros os bares, onde os artistas podiam se apresentar, de segunda a segunda, mas sem remuneração a altura. “Conseguiam ter o que comer, mas o dinheiro não dava para um violão bom, nem nada assim; era preciso muita economia”, diz.

Atualmente, de acordo com o autor, o panorama não mudou muito — “o jeito de fazer música aqui é de mão em mão”. Por mais que a internet tenha aberto janelas para o mundo, muitos dos artistas não sabem como trabalhar seu material nesse espaço: “É preciso pesquisa, quando se aposta no online”. No entanto, não é só isso; ele complementa que existe uma “subvalorização” da música goiana que é algo cultural: “O músico não é bem quisto, até fazer sucesso”.

Ele rememora o superintendente Chaul, ao afirmar que fazer show e gravar disco se tornaram coisas fáceis, diferentemente de fazer sucesso. “A rádio não perdeu ainda seu valor, mas os músicos atuais não entendem de marketing e da importância da rádio. Torna-se inviável, por mais que seja muito criativo o artista.”

A música goiana, portanto, é invisível, não existe — segundo ele, que pontua ainda que não existe uma música regional, que o que se tem é uma influência da música autoral mineira, esta influenciada, por exemplo, pelo Clube da Esquina. Nilo discorre que, para que ela exista, é preciso planejamento do artista, projetos para que ele se consolide, e uma desburocratização dos mecanismos de incentivo.

“É preciso, além do material, do disco bem arranjado, planejar shows, apresentações e modos de viabiliza-los. Se você quer orquestra, banners, outdoors, um público de mil pessoas, você tem um gasto e, por isso, precisa ir além da lei de incentivo, que é para lá de burocrática. E, no entanto, se faz algo malfeito, sem projeção e logo se passa para outra coisa. Falta cuidado, atenção com o projeto, com as coisas públicas. Se a saída para os músicos é editais, ele precisa entendê-los, saber como fazer seu uso. Não tem outro jeito.”

A obra fala ainda de eventos pontuais e históricos, como o Festival Universitário, que reunia mais de 30 compositores de Goiás, e foi vaiado; ou ainda a Festa do Compositor Goiano. Ambos marcaram a história de Goiânia.

Nilo, por fim, destaca a importância do livro que há de servir a escolas, universidades e jornalistas em pesquisas sobre o período citado e seus pormenores. “Nessas seis décadas, ninguém fez um livro parecido, nem no Brasil nem no mundo. Existem apenas coletâneas e coisas do tipo, mas nada como o resgate musical de uma região em livro. Depois de 30 anos, na estrada da música, literatura e jornalismo, eu consegui fazer algo inédito”, comemora.
A obra tem lançamento na noite de 6 de dezembro, na Vila Cultura Cora Coralina e há de contar com muitos dos 150 entrevistados. É só se achegar.